Intencional e Confessional

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Uma resenha do álbum Céus e Terra por Jorge Anderson Missional

Após muitos plays em poucos dias, me impulsionei à fazer um comentário do recente álbum do doce casal Fafa e Jaque. Longe de nós nos aventurarmos em uma resenha mais técnica, de alguém experimentado em acordes, vibratos ou tons. Não! Nossa conversa é vantajosa porque é um texto-impressão do lado da força que “consome música”, e isso por deveras é ignorado pelos que criam. No entanto, a generosidade destes cidadãos de Barra Velha, em seu tato peculiar, viram na impressão dos leigos admiradores da música, uma voz necessária e cá estamos. Assim, nos aventuremos por esse mundo, por esse horizonte musical chamado Céus e Terra.

Antes, um respeito a Schaeffer Após anos de música de Igreja sendo feita pra gente dentro da Igreja, houve um lampejo de música cristã que se propôs a andar sobre o mesmo chão que a música eleita como secular”. Que bobeira, já há muito clichê para um parágrafo! Deixemos tal prosa pra outro café. O que lembro é que a turma Schaefferiana esqueceu a ortodoxia de seu pai. Suas músicas não mencionavam mais o nome de Jesus, só falavam de sol, lua, amor e uma tal de fé; a música deles lembrava o verso do Herbert: “a arte era de viver da fé, só não sabe o que é viver”. Sei lá, meio que parece música pro deus sol, nem se sabe mais o que se vive, triste, será que a música cristã em sua tentativa de dialogar com a cultura não teria um terceiro viés!?

Muito além de Igreja Cool - Neste cenário nebuloso de músicas feitas de crente pra crente ou de quase ex-crentes feitas pra não crentes, faltava-nos uma terceira opção música de crente pra todos, música antenada a arte do mundo pós-moderno, mas com uma espiritualidade sólida, a lacuna estava aberta. Neste contexto, Fafa e Jaque são parte de uma turma nova que surge pelo Brasil. Os Bravos, Gustavo Veríssimo, Melquisedeque Gomes, entre outros, além de representarem um nicho da igreja, são artistas que não negam suas raízes nem sua fé bem resolvida. A música dessa trupe não se limita a uma espiritualidade escapista, ou um tradicionalismo enjaulado com medo do mundo nem o extremo contrário, que nas vibes do status quo “igreja cool”, peca pela falta de originalidade, e cá entre nós, é chatinho e caricato. No fundo no fundo estamos todos cansados de versões evangélicas de Charlie Brown, Legião Urbana, Exaltasamba ou Los Hermanos e por aí vai, queremos gente que canta de onde vem e pra onde vai Nele.

Mundo líquido, minimalismo e sintetizadores Originalidade é ouro nesse mundo líquido. Céus e Terra é um álbum original de gente de verdade. Quem conhece o casal catarinense autor desse álbum, eu conheço (me permita a tietagem, rs), logo vê que as músicas são biográficas, elas são sustentadas por um peso de processo em Deus. O álbum é rico em ensino e esculpido sob uma clara esperança. Logo se percebe nas canções a influência de um tal José, um tal falador de histórias bíblicas, que se tornou muito amigo do casal. As canções ainda têm traços de suas próprias personalidades: não há como escutar “Silêncio” e não se imaginar em férias no convidativo lar minimalista dos Krehnkes no litoral, penso que até Deus tira uns descansos lá.

Eu curto canções com arranjos caprichados e moderninhas, mas confesso que sempre percebo pouca ou nenhuma espiritualidade tocante nestas canções (nessas horas sinto saudade das duas notas musicais das músicas do Cirilo). Porém, esse talvez seja o maior trunfo de Céus e Terra, música cristã atual que nos impulsiona a uma comunhão transcendental, haja vista o clima criado por “Juntos”, “Reverente Submissão” e a sensacional “Toda Dimensão”. Os bens pontuados sintetizadores, guitarras e batidas eletrônicas não são um fim em si mesmo, antes trabalham pra criar esse clima. Há mais do que firulas corriqueiras, e sim uma clara preocupação de se permitir o ambiente espiritual. Fica nítido que cada instrumento foi pensado com essa intenção. E mais, num setlist tão moderninho, ainda houve a sensibilidade para a congregacional “Fixo os olhos”, que o que ela tem de simples, ela tem de eterna e espirituosa, que canção doce! Falando ainda em Doçura (esqueçamos de vez o sabor do mel), o que dizer da Sra. Krehnke? Que voz de outro mundo. Ops! Desculpe a gafe, melhor, voz do mundo vindouro (entendedores entenderão). Brincadeiras à parte, “Tua Glória”, “Portões” e “Nada Importa mais” são tenras como o tom de voz que percebemos quando conversamos com esses guris.

O murmúrio de uma brisa suave - Falando ainda sobre as músicas do álbum, me permitam agora um testemunho pessoal. Em um ajuntamento da Igreja, eu ouvi pela primeira vez a “Santo é o Senhor”. Com todo o respeito, essa música é um soco no estômago com uma pena. Naquele fim de semana eu estava em umas orações doloridas com o Senhor e quando escutei o verso “a ti dou tudo o que sou”, me senti como Elias ouvindo a voz do Senhor em meio a brisa suave. Sem mais testemunhos pessoais (sou tímido), cada um poderá atestar como Deus definitivamente fala por estas canções. Por fim, um reclame: Porque não cantei no álbum? Brincadeira, brincadeira, calma gente, tal tragédia não foi nem pensada. O que quero é mais folk do menino Krehnke nas próximas compilações como na Toda Terra. Quero um tom maior de “Rend Collective Experiment” à brasileira. Let’s folk, man!

Intencional e Confessional Chego ao fim desta resenha retomando um discurso mais ideológico. Quem conhece o Fabiano e a Jaqueline Krehnke e tem noção do contexto em que eles estão inseridos, sabe que todo este trabalho é intencional. Intencional porque busca discipular a Igreja, é intencional porque visa ser uma voz pública para um discurso de muitos irmãos, e é intencional porque visa usar a arte para pintar um quadro externo daquilo que o Senhor tem desenhado nos nossos corações. Outro, quem conhece as intempéries recentes da arte cristã como este casal, sabe que este CD propositalmente tem a orientação para o ser o mais confessional possível. Confessional porque fala do Cristo e busca a centralidade dEle, confessional porque é feito para glorificá-Lo acima de tudo, e por último, confessional porque O confessa além das meras palavras, mas com a encarnação que é produzida pelo testemunho do Cristo e que esta família tem guardado, eles mesmo tem reiteradamente dito: “não é mais sobre aquilo que falamos”, este álbum é confessional acima de tudo por ser cada uma dessas preciosas canções resultado daquilo que eles e todos nós estamos nos tornando”.

Deus Seja!